Uma aldeia chamada Amesterdão

Amesterdão é a cidade das bicicletas! Nunca em toda a minha vida vi tantas bicicletas nem tanta gente a fazer deste meio de transporte a sua forma de mobilidade pela cidade. Nunca me cansei de admirar famílias inteiras, com crianças em cadeirinhas específicas ou atrelados, mulheres de saltos ou com roupa formal. Todas as pessoas andam de forma natural possível. Até dá inveja a sua descontração e sobretudo a sua mobilidade, sem custos de combustíveis, sem poluição, sem filas ou apertos nos transportes públicos. Fogo, isto sim é qualidade de vida. Vamos à descoberta do que visitar em Amesterdão?

O que visitar em Amesterdão?

Quando falamos de Amesterdão três lugares-comuns saltam de imediato nas nossas mentes: Red Light District, as Coffeeshops e o consumo liberal das drogas leves. Mas Amesterdão é muito mais do que isso. É uma cidade moderna e cosmopolita, onde nos deparamos em cada casa e em cada rua com marcas da sua história de riqueza e prosperidade.

Amesterdão não é muito grande e pode facilmente ser percorrida e explorada em três dias. Seja qual for o ponto de partida ou o percurso escolhido alguns marcos têm que ser mesmo incluídos na visita à cidade.

Dia 1 – Oude e Nieuwe Zijde

Partindo da Praça Dam à descoberta de Nieuwe Zijde a primeira paragem é na Estação Central. Um imponente edifício de tijolo vermelho que é o centro das entradas e saídas da cidade. Passando de seguida pela Magna Plaza, edifício que alberga uma luxuosa galeria comercial, e pelo Monumento Nacional que presta homenagem às vítimas da II Guerra Mundial.

Sugiro que, a partir do coração da cidade, comecem com uma visita ao Palácio Koninklijk e à Nieuwe Kerk. São dois imponentes edifícios que delimitam um dos cantos desta imponente praça. O Palácio é sumptuoso com um interior em mármore que conta a história da influência colonial holandesa durante o século XVII. Tem uma curiosa característica, foi construído em solo pantanoso, sendo suportado por mais de 13 600 pilares de madeira (se possível não saltem lá dentro. Just in case!).

No outro lado da Praça encontra-se a Nieuwe Kerk, a Igreja oficial da Holanda. O que mais me arrebatou nesta igreja foi a sua decoração interior, uma típica igreja protestante, à qual não estou obviamente habituada. Enquanto percorria os diversos espaços desta igreja não consegui deixar de a comparar com diversos exemplos de igrejas católicas que já visitei, sobretudo em Itália. As comparações são inevitáveis e muito curiosas. Se não experimentem o seguinte exercício. Sigam até à monumental igreja católica de Saint-Nicolaaskerk, localizada perto da estação Central, e visitem a Nieuwe Kerk e tirem as vossas conclusões.

A igreja de Saint-Nicolaaskerk assinala um ponto de viragem na história religiosa holandesa. O arranque da tolerância religiosa no país e a substituição de algumas igrejas católicas até então clandestinas.

Seguimos agora em direção ao Begijnhof, um amplo pátio que foi o santuário da irmandade católica de Begijntjes. Está estrategicamente escondido esconde por trás da Praça Spui. Este pátio guarda algumas surpresas. A casa de madeira mais antiga da cidade (nº 34), uma parede que reúne uma impressionante coleção de placas com motivos religiosos e uma igreja católica clandestina. Por todo o pátio respira-se uma sensação calma e tranquilidade.

Saímos do Begijnhof diretamente para a Praça Spui, uma das mais animadas com diversos café e restaurantes. Aqui está localizado o mítico Café Hoppe, um dos mais antigos Brown Coffees de Amesterdão (inaugurado em 1670). Recomendo uma paragem técnica no Hoppe para uma deliciosa tarte de maçã com chantilly e um expresso ou um cappucino.

Entramos agora na Oude Zidje, percorrendo as suas ruas e descobrindo edifícios antigos e as suas particularidades. Passamos pela Stopera, o único edifício que conheço ser em simultâneo, opera e estádio, e pelo quarteirão judeu. Sugiro a visita ao Museu Histórico dos Judeus (museu construído em 4 sinagogas), à Sinagoga Israelita-Portuguesa e ao Hollandsche Schouwburg (espaço que albergava os judeus antes de serem deportados durante a II Guerra Mundial).

Outro local a não perder é a Oude Kerk, a Igreja mais antiga de Amesterdão, com cerca de 800 anos. Esta igreja possui um dos mais admiráveis órgãos que já tive a oportunidade de ver e diversos pormenores muito interessantes descobrir. Procurem pela porta vermelha, olhem para o teto e para os pilares e procurem a Capela da nossa Senhora. Mas para mim a principal particularidade desta igreja é conviver lado a lado, e de forma bastante harmoniosa, com o frenético Bairro da luz vermelha. Cidade de contrastes, só em Amesterdão podem conviver tão harmoniosamente uma igreja e as luzes do famoso Red Light District.

O que visitar em Amesterdão? Vamos então entrar nas ruas que expõem, sem pudores nem falsas modéstias, a mais velha profissão do mundo, em montras iluminadas pelos néons vermelhos. Como tudo nesta cidade, este Bairro tem a sua história e não nasceu do acaso. Foi uma tentativa de organizar a profissão e de manter “as meninas” confinadas a um único ponto da cidade, em pleno século XV. Atualmente é uma das zonas mais concorridas e populares da cidade.

Se ainda não estão cansados, sugiro uma passagem pelo restaurante Haesje Claes, na Spuistraat, muito perto da praça Spui. É o local ideal para provar a gastronomia local, num ambiente que nos remete para os séculos de prosperidade de Amesterdão.

Dia 2 – Anel dos Canais

Para o segundo dia parti à descoberta do chamado “Anel dos Canais”. Construído na Idade de Ouro da Holanda em pleno século XVII, quando a Companhia Holandesa das Índias dominava o comércio no “Novo Mundo”. Foi considerado Património da Humanidade pela UNESCO em 2010.

É a caminhar por estas ruas e canais que percebi a verdadeira alma desta cidade de contrastes. Cada canal é ladeado por casas tão similares e, em simultâneo, tão diferentes entre si e todas contam uma história que é interessante descobrir. Agora é o momento certo para guardar o mapa. Deixe-se apenas deambular pelas ruas estreitas, virando ao acaso, aqui e ali, para contemplar este ou aquele detalhe que nos prendeu a atenção. Há tanto para ver e descobrir ser impossível colocar por palavras. Outra sugestão é embarcar num dos muitos cruzeiros disponíveis e percorrer os principais canais da cidade; Singel, Herengracht (Cavalheiro); Keisergracht (Imperador); Prinsengracht (Príncipe). Deu-me outra perspetiva da cidade e dos seus canais.

Esta é também a zona ideal para ficarmos a conhecer outro dos cartões de visita de Amesterdão… as casas barco. Algumas mais antigas, outras, verdadeiros apartamentos modernos. Todas possuem eletricidade e um número postal (não, não podem parar cada noite num canal diferente). Atualmente existem mais de 2500 casas barco e a Câmara já não concede novas autorizações, a menos que algum dos residentes desista da sua “morada”.

O que visitar em Amesterdão? No Anel dos canais encontramos o famoso mercado das flores, Bloemenmarkt. Conhecido pelas suas bancas coloridas e cobertas das mais variadas flores, muito para além das típicas tulipas. E Westerkerk, uma típica igreja protestante holandesa conhecida por ter a torre mais alta da cidade. Tem ainda a nave mais larga de qualquer outra igreja protestante na Holanda e um imponente órgão com os painéis pintados.

O dia termina com o regresso ao passado, a uma época da história que deixou fortes marcas em Amesterdão, na Europa e no mundo. Uma visita à Casa de Anne Frank. Durante a visita não consegui acreditar, apesar das provas e dos factos evidentes, que oito pessoas ali se esconderam durante quase dois anos para escapar à perseguição promovida aos judeus durante a II Guerra Mundial. A casa guarda a memória desses tempos e aprofunda uma história que muitos já conhecidos, mas nunca verdadeiramente compreendidos.

Dia 3 – Bairro dos Museus

Terminei a viagem no Bairro dos Museus. Amesterdão é reconhecida por albergar alguns dos melhores museus do mundo. No Museum Plein estão localizados alguns desses museus de reputação internacional, o Rijksmuseum, o Van Gogh Museum e o Stedelijkmuseum. Todos alinhados, lado a lado, para nos facilitar a visita e poupar as pernas!

Cada um tem a sua especificidade. O Rijks tem a maior coleção de arte holandesa. Os protagonistas da exposição são “A Ronda na noite”, a principal obra de Rembrandt, e “A Leiteira”, uma cena doméstica quotidiana pintada por Vermeer. Este museu é enorme, pelo que o melhor é selecionar as exposições/obras a visitar e deixar as restantes para uma próxima visita. Assim, garante a atenção que cada obra merece.

O Van Gogh percorre a vida e obra de um dos maiores e mais incompreendidos (em vida) pintores mundiais. As suas obras são tão díspares como a sua vida e as influências que recolheu em diferentes ocasiões, experiências e locais por onde passou. O museu mostra diferentes momentos da vida do artista, durante os 10 anos em que se dedicou à pintura, as suas influências e a sua história de vida.

O Stedelijkmuseum alberga uma impressionante coleção de obras de arte modernas e contemporâneas, onde se destacam peça de Picasso, Matisse, Monet e Cézanne.

O Bairro dos Museus convida também a um passeio através do maior parque da cidade, o Vondelpark, ou a apreciar um concerto no Concertgebouw, o salão de concertos cujo edifício tem uma fabulosa fachada clássica.

Ao fim destes três dias fica ainda muito para ver e descobrir, mas percorri os principais pontos e deixamos alguns aperitivos para uma próxima visita. Destes 3 dias conseguimos perceber que Amesterdão é definitivamente uma cidade de contrastes, liberal e única como nenhuma outra. Ao mesmo tempo, faz lembrar uma aldeia rural, com as suas lojinhas, bicicletas por todo o lado, as casas simples, discretas e ambiente familiar.

Agora que já sabe o que visitar em Amesterdão, o que está à espera para fazer a mala?

Guia de Viagem:

– Visita à Casa de Anne Frank: comprar o bilhete online que dá entrada direta no edifício, evitando as enormes filas.

Cartão I am Amsterdam: fiz e refiz as contas inúmeras as vezes e  a verdade é inegável. Com este cartão podemos entrar em inúmeros museus e monumentos a custo zero, assim como ter desconto noutros tantos locais. O cartão inclui ainda os transportes públicos (todos grátis) e um cruzeiro nos canais. No total poupei mais de 40 € com a aquisição do passe de 3 dias…

 – Transportes públicos: apesar de Amesterdão não ser uma cidade muito grande recomendo  que usem e abusem dos transportes públicos. As ligações aos principais pontos turísticos são ótimas e permitem ver mais em menos tempo.

 – Do aeroporto: nada mais fácil. É só apanhar o comboio para a central Station e daqui apanhar o tram para a estação mais próxima do hotel. Não leva mais de 30 / 40 minutos.

Published by Random Traveler

Olá, o meu nome é Sónia, e quando não estou a viajar, estou a planear a próxima viagem ou a sonhar com mil e um destinos que ainda não conheço. Já visitei 38 países e é nessas viagens que nascem as histórias e imagens que aqui partilho. View more posts

2 thoughts on “Uma aldeia chamada Amesterdão

  1. Show de bola! beleza, muita beleza, politização, organização, inteligência, alegria…Espero vê-la pessoalmente. Viva a Holanda! Povo feliz! Gefeliciteerd !

  2. contramapa – Gosto de ler, gosto de escrever e tenho ganho o gosto de viajar. Decidi juntar as histórias acumuladas neste espaço e chamei-lhe Contramapa. Porque nas contracapas dos meus livros existe sempre um mapa, um sítio onde ir, um local a descobrir. Aqui podem conhecer as minhas histórias e viagens em livro aberto. contramapa@gmail.com
    Diana diz:

    boas fotografias e boas dicas no final! parabéns! 🙂

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