Sarajevo, um percurso pelas memórias do cerco

Pouco depois dos Jogos Olímpicos de inverno de 1984 Sarajevo foi cercada e assim se manteve durante 1 425 dias, o cerco mais longo de qualquer cidade na história moderna. Mais de 10 500 pessoas morreram e seis séculos de herança foram destruídos pelos bombardeios. Vamos fazer um percurso pelas memórias do cerco de Sarajevo?

A guerra de 1992-1995 deixou um rastro de destruição na cidade e as muitas das marcas são visíveis até hoje nos edifícios habitacionais dos bairros da periferia da cidade, assim como nos edifícios do centro histórico, apesar do trabalho de reconstrução que foi levado a cabo e que recuperou inúmeros edifícios históricos.

Sarajevo, percurso pelas memórias do cerco
Sarajevo
Percurso pelas memórias do cerco de Sarajevo

Tudo começou em abril de 1992, quando o governo da república jugoslava da Bósnia-Herzegovina declarou a sua independência da República Popular Federal da Jugoslávia, constituída após a Segunda Guerra Mundial, pelos estados dos Balcãs da Bósnia-Herzegovina (BH), Sérvia, Montenegro, Croácia, Eslovénia e Macedónia. Esta separação levou a que, entre 1992-1995, as forças sérvias bósnias, com o apoio do exército jugoslavo dominado pelos sérvios, cercassem a cidade e perpetrassem ataques aos bósnios (muçulmanos da Bósnia) e croatas, que levaram à morte de cerca de 100 000 pessoas (80% delas em bósnia). De referir que na Bósnia, os muçulmanos representavam o maior grupo populacional, representando cerca de 44% da população, seguido de 31% de Sérvios e 17% de Croatas.

Ao longo de apenas três anos, dilacerado por conflitos civis e guerras, o Reino da Jugoslávia se desintegrou em cinco estados sucessores: Bósnia e Herzegovina, Croácia, Macedónia, Eslovénia e República Federal da Jugoslávia (mais tarde conhecidas como Sérvia e Montenegro).

As memórias que ainda resistem espalhadas pela cidade…

Pouco depois de chegar à cidade, e no primeiro passeio que dei ao longo das ruas de Sarajevo encontrei em diversos locais manchas de tinta vermelha. Mais tarde viria a descobrir que são as famosas Rosas de Sarajevo”, marcas de ataques de artilharia, prova viva dos milhares de ataques que caíram sobre a cidade. Os morteiros que atingiam o solo deixaram estas marcas que se assemelham a uma flor. No pós-guerra, essas “flores” foram preenchidas com resina vermelha, reconhecimento do horror que os habitantes da cidade suportaram durante o cerco mais longo de qualquer cidade na história moderna. Estas marcas são hoje uma homenagem única àqueles que foram mortos durante um dos episódios mais trágicos da história da cidade.  Durante o cerco, entre 1992 e 1995, dezenas de milhares de morteiros caíram sobre a cidade, deixando marcas profundas, nas ruas, mas sobretudo nas pessoas que ali resistiam dia após dia.

Sarajevo, percurso pelas memórias do cerco
Percurso pelas memórias do cerco de Sarajevo

Dois dos museus da cidade são dedicados ao período trágico da década de 1990. O Museu de crimes contra a humanidade e o genocídio 1992 – 1995 e a Galeria Memorial 11/07/95.  O Museu 11/07/95 é um Memorial ao genocídio de 11 de julho de 1995. Nessa data 8 372 pessoas foram mortas na cidade de Srebrenica na Bósnia Oriental. A exposição inclui fontes documentais, fotografias, vídeos, áudios e peças que testemunham esses trágicos acontecimentos.

O Museu de Crimes Contra a Humanidade e o Genocídio 1992 – 1995 foi fundado em julho de 2016 para homenagear a memória das vítimas da guerra. Os seus fundadores são vítimas que sobreviveram à guerra. A exposição do museu contém uma variedade de fotos, documentários, testemunhos e itens pessoais que contêm as histórias das vítimas da guerra e do genocídio. O museu apresenta ainda simulações de uma vala comum e do confinamento na solitária. Toda a exposição é baseada em veredictos dos de crimes de guerra nos tribunais nacionais ou internacionais. A exposição consiste em várias partes que diferem em todos os quartos. Cada sala tem o seu próprio “tópico” ao qual os itens exibidos correspondem.

O túnel da esperança é outro local emblemático quando se fala do cerco a Sarajevo. Foi escavado entre o aeroporto, administrado pela ONU, até à casa da família Kolar, em Butmir, nos arredores de Sarajevo. Foi a única ligação entre a cidade e o mundo exterior. Até ao final do cerco, em fevereiro de 1996, foi palco da maior operação clandestina de abastecimento da cidade com alimentos, petróleo e eletricidade. No pós-guerra, parte deste túnel estreito foi transformado num museu que permite agora perceber como era feito o transporte de produtos. Com 800 m de comprimento, um metro de largura e 1,5 m de altura, obrigava a uma jornada subterrânea apertada e perigosa. Mais de 4 000 habitantes da cidade faziam-na diariamente, carregando 50 kg de suprimentos. A construção do túnel demorou seis meses e foi feito, incrivelmente, através de escavação manual.  As forças servias sabiam da sua existência, apesar de não terem noção da localização exata, pelo que todo o bairro foi repetidamente alvo de ataques.

Sarajevo, percurso pelas memórias do cerco
Percurso pelas memórias do cerco de Sarajevo
Sarajevo

A  Ponte Suada e Olga, também conhecida pela Ponte do Amor, é um dos locais mais emblemáticos para os habitantes de Serajevo. Esta ponte foi o palco de quatro trágicas mortes durante o cerco.  A primeira a 5 de abril de 1992. Snipers alojados nas montanhas circundantes da cidade tiraram a vida de duas jovens mulheres – Suada Dilberović e Olga Sučić – as primeiras vítimas inocentes da guerra. No dia da sua morte, tinham participado, com dezenas de milhares de cidadãos, numa manifestação contra a guerra. Por este motivo, a  ponte é agora nomeada de Suada e Olga.

Outro acontecimento trágico que teve lugar neste local, um pouco mais de um ano depois. A morte do jovem casal – Boško Brkić e Admira Ismić. Ficaram conhecidos através da notícia do repórter de guerra americano, Kurt Schork, que os apelidou de “Romeu e Julieta de Sarajevo”. Boško e Admira era de etnias diferentes (Boško era sérvio e Admira muçulmana), pelo que a sua relação era manifestamente arriscada e controversa. Por este motivo, e numa tentativa de escapar ao cerco, Boško negociou com os sérvios a saída de ambos da cidade, procurando ficar longe da BH até a guerra terminar. A trégua foi negociada, mas não respeitada e Boško foi atingindo com um tiro à entrada da ponte, tendo morrido imediatamente. Segui-se Admira que ficou gravemente ferida, conseguindo ainda arrastar-se até junto de Boško, onde morreu abraçada.

Sarajevo, percurso pelas memórias do cerco
Percurso pelas memórias do cerco de Sarajevo

O edifício do Parlamento, localizado na TRG Bosne I Herzegovinaa, ficava no centro do antigo Beco dos Snipers. Este era ocorredor mais perigoso da cidade. Grupos de snipers instalados nas montanhas disparavam contra todas as pessoas que por ali se atreviam a passar. Durante a guerra, o edifício encontrou-se na linha da frente, tendo sofrido pesados danos.  A sua reconstrução teve lugar em 1998.

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Sarajevo, percurso pelas memórias do cerco

Em 1984, para a realização dos Jogos Olímpicos de inverno, estruturas foram construídas nas montanhas circundantes ao redor da Capital. Quando as montanhas, uma década depois, foram ocupadas pelos chetniks que cercaram a cidade, as estruturas Olímpicas foram transformadas em bunkers e posições improvisadas de atiradores furtivos. Entre estas estruturas estavam as pistas de Bobsleigh no Monte Trebević que podem agora ser percorridas a pé. São tubos de cimento e ferro ferrugento exposto, totalmente grafitados e cheios de marcas do conflito.

 Sarajevo, percurso pelas memórias do cerco
Percurso pelas memórias do cerco de Sarajevo
Sarajevo Bobsledg
Sarajevo, percurso pelas memórias do cerco

Vijećnica, um dos mais belos edifícios da cidade, foi construído durante o período austro-húngaro. Talvez pelo sua beleza e importância na cidade foi completamente destruído durante o cerco. Foi atingido por bombas de fósforo que destruíram uma das mais importantes coleções de livros, manuscritos e outras obras literárias que aqui estavam abrigadas. Milhares de livros foram destruídos.

Sarajevo, percurso pelas memórias do cerco

 Em 5 de fevereiro de 1995, um morteiro explodiu na principal praça do mercado de Markale, matando 68 pessoas e ferindo quase 150. O bombardeio no mercado de Markale foi um dos maiores massacres cometidos durante o cerco de Sarajevo entre abril de 1992 e dezembro de 1995. Este ataque foi o último massacre em Sarajevo, tendo finalmente mobilizado a NATO para intervir e para ajudar a acabar com a guerra.

Sarajevo

No Parque Veliki encontramos um dos mais violentos monumentos dedicados às vítimas do certo. Neste caso é dedicado às crianças que perderam a vida durante este período. Este monumento tem uma base de bronze feito das carcaças derretidas da artilharia e duas esculturas de vidro que representam uma mãe que protege a sua criança.

Sarajevo
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Após quase quatro anos de guerra, o Acordo de Dayton, intermediado pelo então presidente dos EUA Bill Clinton, foi assinado a 14 de dezembro de 1995, pondo fim à guerra. A Bósnia foi dividida e, duas entidades territoriais a Federação Bósnio-Croata, governada por bósnios, muçulmanos e croatas, e a Srpska, governada por sérvios. Foi ainda criada uma zona de ninguém, o enclave de Brcko.

Meliha Varešanović, um exemplo de resistência:

Meliha Varešanović, uma mulher de Sarajevo, procura manter uma vida “normal”. Ela vestiu as melhores roupas e colocou maquilhagem para andar pelas perigosas ruas da cidade, resistindo à realidade sangrenta e perigosa. Ela estava a tentar o seu melhor para levar uma vida normal. A sua vida estava ameaçada, assim como a de todos os outros. Mas ela correu para sobreviver e tornou-se, desta forma, um símbolo de resistência ao cerco.

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