O que descobri na outra margem de Mandalay?

Mingun

O que descobri na outra margem de Mandalay? Descobri três localidades cheias de história, cultura e tradições ancestrais. E locais de tal beleza que quase não acreditava que estavam na minha frente.

O dia começou bem cedo, quando o calor é apenas o ideal. Para nós, claro, porque para o guia que nos acompanhou, o dia estava frio, muito frio! De tal forma que ele além de camisa de manga comprida trazia ainda um casaco polar. E achava estranho estarmos de manga curta com aquele frio. Idiossincrasias que se encontram por estes lados.

O tour iniciou da melhor forma, com uma viagem de barco até “a outra margem” de Mandalay, seguíamos em direção a Mingun. Àquela hora da manhã era possível observar a atividade que se desenrolava no rio e nas suas margens. Pescadores, barcos de transporte de areia, pastores com os seus rebanhos e famílias nas suas atividades matinais.

Mingun
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Mingun

Atracamos numa das margens, sem pontão ou algo parecido. Logo ali, fui surpreendida pelo táxi mais cómico que alguma vez tive oportunidade de ver. O táxi-búfalo. Uma carroça rústica puxada por um búfalo branco. Além do caricato táxi, o inusitado da situação não deixou de arrancar-me uma gargalhada. O “táxi” estava com um problema mecânico e estava a ser arranjado. Não havia melhor forma de Mingun nos receber.

Mingun

O guia já ia afastado e com uma corrida juntei-me a ele e seguimos para a primeira paragem, o templo Sar Taw Yar. Um pagode fabuloso, não pela sua dimensão ou grandiosidade arquitetónica, mas pela sua localização, na margem do rio, com uma vista de cortar o fôlego. Via-se na margem do rio uma família a lavar a roupa e alguns pescadores.

Mingun
Mingun

Daqui seguimos diretos para o templo de Pahtodawgyi, aquele que é sem dúvida o principal cartão de visita de Mingun. É uma das estruturas inacabadas mais famosas do mundo e mesmo com um visível estado de degradação, a loucura e ambição do rei Bodawpaya é uma visão imponente, principalmente quando vislumbrado pela primeira vez. Foi mandado construir nas margens do rio Ayeyarwady com o objetivo de igualar em escala as proezas do rei como construtor de impérios.

No entanto, as revoltas do início do século XIX causaram escassez de fundos e mão de obra, e o projeto nunca foi concluído. A obra foi interrompida quando o edifício principal já tinha uns imponentes 49 m de altura. Se tivesse sido completado, a estupa seria superior à Grande Pirâmide de Gizé, no Egito, com uma altura de cerca de 150 m e um perímetro de 137 m². O seu aspeto deve-se ao terramoto de 1839 que reduziu uma parte a escombros e deixou enormes falhas nas fachadas.

Foram ainda construídos dois proeminentes de leões de pedra, à escala do templo, de frente para o rio Ayeyawaddy. Hoje, como a estufa, são apenas memórias parcialmente destruídas daquela que seria uma das obras mais grandiosas da humanidade.

Mingun
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Mingun

O próximo local de visita é também conhecido pelas duas dimensões de escala mundial. O sino de Mingun é atualmente o maior sino do mundo. Foi feito de bronze, mas diz-se que os budistas inseriram ouro, ornamentos de prata e joias no bronze. Ninguém por ali passa sem o testar. Fomos um pouco mais longe e espreitamos o sino por dentro, arriscando a vida e os ouvidos, caso alguém tivesse decidido tocar o sino enquanto estávamos lá dentro. Felizmente o local não tinha quase ninguém aquela hora.

Mingun

Em direção à última paragem em Mingun, o templo Myatheindan, percorremos as rústicas ruas da cidade, admirando os contrastes. De um lado uma moderna “vivenda” com parabólica e do outro uma rústica casa construída de forma típica, em bambu, e com o seu búfalo e carroça (talvez casa de um motorista de táxi-búfalo).

Mingun
Mingun

Quando chegamos à enorme nuvem branca que é o pagode de Myatheindan, percebi rapidamente porque é um dos mais Instragamaveis de Myanmar. De facto, destaca-se na paisagem pelas ondas brancas que se estendem a toda a volta, culminado numa enorme estupa branca. Foi aqui que descobri que qualquer um pode ser um influencer, assim tenha o guia certo. Um guia que conheça todos os ângulos para tirar as melhores fotos. E o meu conhecia. Não sou nada dada a tirar fotos, mas metade da visita a este pagode passou comigo a pousar em 300 locais diferentes, em todas as poses que o nosso guia já tinha identificado nas redes sociais.

Foi uma mistura de tortura e diversão porque, na verdade, as fotos até ficaram boas. Ainda me agradeceu por um novo ângulo que descobri e que vai certamente passar a usar. O pagode foi construído pelo rei Bagyidaw em 1816, em memória da sua esposa mais velha, a princesa Hsinbyume. É constituído por sete terraços ondulados que representam as sete cadeias de montanhas localizadas nas imediações do Monte Meru. Este pagode foi seriamente danificado em 1838 pelo terramoto, mas foi restaurado em 1874, mantendo a sua beleza original.

Mingun
Mingun
Mingun

Sagaing

Estava já um calor inacreditável quando regressamos de barco a Mandalay. Próxima paragem: colina de Sagaing. Este monte que se espalha por uma extensa área parece um local mágico, pejado de pagodes, colina acima colina abaixo. A vista do topo é imponente, com a colina incrustada de inúmeras cúpulas caiadas de branco e pináculos dourados cintilantes. Milhares de pagodes e mosteiros budistas aglomeram-se nesta cidade ribeirinha. Sagaing é o centro espiritual da região de Mandalay. Milhares de monges residem e estudam nos numerosos kyaungs (mosteiros) espalhados pela cidade e todos os dias ali chegam milhares de peregrinos para prestar homenagem nos vários templos.

colina de Sagaing
colina de Sagaing

Iniciada a subida, o primeiro templo com que nos cruzamos foi Umin Thonze, conhecido pela sua fila de 45 imagens de Buda dispostas de forma semicircular, criando um curioso santuário em forma de quarto crescente. As paredes à sua volta são decoradas com mosaicos de vidro reluzente e as estátuas ornamentadas com a cor mais famosa por estes lados, o dourado. As fotos aqui ficam quase todas incríveis, tal a beleza do santuário.

colina de Sagaing
colina de Sagaing

Colina acima chegamos ao Soon U Ponya Shin, templo que coroa a extremidade sul de uma longa cordilheira que se estende ao norte até Mingun. É o mais proeminente dos muitos templos espalhados pela colina Sagaing. A subida até lá é feita através de uma das várias passagens cobertas que levam ao cume. Sempre de olhos postos na paisagem envolvente. Além da sua grandiosidade dourada, complementada por uma passadeira de mosaicos coloridos, muito tecnicolor, o seu terraço oferece uma vista deslumbrante sobre o rio Ayeyarwady e os inúmeros templos que pontilham o verde desta imensa colina.

colina de Sagaing
colina de Sagaing

Inwa

Estava ainda reservada uma visita a Inwa, antiga capital birmanesa. Foi a cidade que mais tempo resistiu como capital do reino (seis longos séculos). Desse período resistem até hoje um conjunto de templos, estupas e mosteiros. Chegamos a Inwa da forma tradicional, num pequeno barco que faz a travessia de um dos afluentes do Ayeyarwady. É uma curta viagem de cinco minutos, após a qual fomos instalados numa rústica e desconfortável carroça. Estávamos agora preparados para um percurso pela cidade à descoberta dos seus monumentos mais ilustres.

Inwa Myanmar

A primeira paragem é na Fortaleza Thapyatan localizada na margem do rio Irrawaddy. Tem cerca de 120 m², com três paredes de frente para o rio, sobre as quais os canhões poderiam disparar contra os invasores britânicos que subiam o rio. Vários dos velhos canhões ainda estão por lá, impondo respeito. É um local silencioso e, com mais tempo, gostaria de ter por ali ficado apenas a desfrutar do sol e da vista sobre o rio.

Inwa Myanmar

Back to the horse (sempre quis usar esta expressão!) e a visita segue em direção ao mosteiro Bargaya construído no sudoeste do palácio Inwa em 1593. O mosteiro é uma esplêndida obra arquitetónica, quer pela e coração, o telhado de sete camadas e a estrutura de teca, assente em 267 postes do mesmo material. Todo o edifício do mosteiro está decorado com esculturas e arabescos florais e ornamentado com figuras curvas e relevos de pássaros e animais, bem como pequenos pilares na parede, luxuosamente decorados. Apesar da sua beleza, o que mais apreciei neste local foi poder admirar a vida rotineira dos monges e dos seus alunos. Numa das salas, decorria uma aula de gramática, aprendia-se o complexo alfabeto birmanês. Tentamos não perturbar as atividades, nem intervir de nenhuma forma com a tranquilidade do local.

Inwa Myanmar

Na nossa carroça azul, seguimos para o complexo de Yadana Hsemee. Um espaço de grande beleza, onde edifícios são construídos maioritariamente de tijolos vermelhos. Algumas estruturas encontram-se destruídas, mas é possível circular pelo recinto em tranquilidade, descobrir os diversos templos que por ali ainda resistem, assim como as estátuas de Buda. Apesar da destruição visível podemos observar que estes foram templos incríveis e relevância religiosa.

Inwa Myanmar
Inwa Myanmar
Inwa Myanmar

Outro ponto de paragem obrigatória é a torre de vigia, com cerca de 30 m de altura, um edifício de alvenaria que permanece, solitário, no complexo do palácio de Bagyidaw. Foi construído em 1822, mas o já falado terramoto de 1838 abalou de forma permanente a sua estrutura, pelo que, infelizmente, não foi possível subir ao topo.

Inwa Myanmar

Terminamos a ronda no imponente mosteiro de Maha Aung Mye Bonzan, conhecido como Me Nu Oak-kyaung (mosteiro de tijolos). A sua arquitetura simula os mosteiros de madeira com vários telhados e uma sala de oração de sete camadas. Na entrada principal encontram-se dois grandes leões de pedra, com ar feroz, guardiões do mosteiro. Segundo nos explicou o guia, este antigo mosteiro é um dos melhores exemplos da arquitetura birmanesa do século XIX.

Inwa Myanmar
Inwa Myanmar

A viagem prossegue devagar, de volta ao pequeno barco, por caminhos de terra que constituem as vias de circulação de Inwa. A paisagem é magnífica, campos de arroz, intercalados por santuários e monumentos que ainda se resistem à passagem dos séculos e aos maus tratos provocados pelos terramotos. Apesar de ser um destino de passagem de muitas rotas turísticas, a espaços ouvimos apenas o trotar do cavalo, as rodas da carroça a rodar nas areias do caminho e os ossos a estalar do desconforto do banco duro da carroça. Passa por nós uma família, numa carroça puxada por dois búfalos, ambos decorados a preceito. Diz o guia que vem de uma comemoração local. Acenam felizes e respondemos da mesma forma.

Inwa Myanmar
Inwa Myanmar

Assim termina o nosso dia, com mais uma prova da hospitalidade e boa disposição dos birmaneses. Não me canso desta gente boa e desta terra que todos os dias presenteia-me com paisagens, templos e experiências avassaladoras. E, nesta fase da viagem, não tenho minimamente vontade de regressar.

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