Srebrenica, um lugar repleto de memórias

Ando há muitos meses para escrever este texto, sem saber bem como começar e o que dizer. Hoje é o dia…assinala-se hoje (11 de julho) 25 anos do massacre de Srebrenica, na Bósnia-Herzegovina. Srebrenica, é hoje um lugar repleto de memórias.

Há locais que visitamos pelo seu interesse histórico e cultural, outros pela sua beleza arquitetónica ou natural, outros pela memória, ou falta dela, de acontecimentos dramáticos que ali ocorreram. Srebrenica, local de um dos mais dramáticos genocídios da Guerra dos Balcas, é um destes casos. A cidade ficou conhecida internacionalmente devido aos eventos dramáticos que ali ocorreram durante a Guerra da Bósnia (1992-1995) onde mais de 8000 bósnios muçulmanos foram assassinados por soldados do exército sérvio bósnio liderado pelo general Ratko Mladic.

Durante a Guerra dos Balcãs, Srebenica foi cercada e sitiada pelas forças sérvias. Em abril de 1993, as Nações Unidas declararam o enclave bósnio muçulmano/bósnio uma área segura da ONU “Safe Zone” (ou Unsafe Zone como ficou conhecida). Zona “livre de qualquer ataque armado ou qualquer outro ato hostil” e protegida por uma pequena unidade operando sob o mandato da Força de Proteção das Nações Unidas. Porém, a ONU não conseguiu desmilitarizar o Exército da República da Bósnia e Herzegovina, nem forçar a retirada das tropas ao redor da cidade. Sobretudo, a Força de Proteção das Nações Unidas, foi incapaz de impedir a captura da cidade pelo exército bósnio e massacre subsequente.

Localizada nas montanhas, Srebrenica é mais um exemplo do contraste da região dos Balcãs. A beleza convive lado a lado com as cicatrizes de uma guerra que é ainda muito recente na memória daqueles que a viveram. Quando se entra na região que, encontram-se ainda as marcas dos ataques e genocídio de mais de 8000 homens e meninos muçulmanos da Bósnia. Casas com marcas dos tiroteios, casas em tijolos, numa tentativa de reconstrução, o Memorial e o Cemitério de Srebrenica-Potočari são as fotografias que ficam na memória.

Srebrenica
Srebrenica

Srebrenica é uma pequena cidade perdida naquela que é considerada uma zona de ninguém na Bósnia, a República de Srpska, controlada pelos sérvios da Bósnia como parte do acordo de paz de Dayton. Está localizada a cerca de duas horas e meia da cidade de Sarajevo. A estrada até lá segue através de uma zona montanhosa de grande beleza natural. 

A primeira paragem é no “Museu” localizado na antiga Fábrica de Baterias, local que foi ocupado ​​pelo batalhão holandês da ONU, entre 1994 a 1995, encarregado de manter a paz na região. A visita é dura e ouvir os acontecimentos da boca de um dos sobreviventes é uma experiência dolorosa e dramática, à qual se segue o visionamento de um vídeo sobre o massacre. Saí daquele espaço completamente tolhida pelo horror. Da tragédia. Da falta de memória destes acontecimentos recentes. Pelas pessoas que tiveram que partir e pelas que tiveram a coragem, de voltar a este lugar.

Continuo a visita em silêncio, pensando no que acabei de ver, até que o choque traz-me de volta ao presente. Naquele que devia ser um espaço de abrigo e num espaço neutro da ONU, encontro nas paredes o escárnio dos soldados que por ali passaram. Desenhos obscenos sobre as mulheres sérvias muçulmanas, comentários revoltantes, espelham que estes soldados da paz nunca tiveram noção da importância da sua missão, nem da responsabilidade a que estavam obrigados. 

Srebrenica

Percorri o resto das instalações em silêncio, contemplando as fotografias do pós-guerra, a história do local e sai para a rua com todas as imagens a encherem-me a cabeça.

Srebrenica
Srebrenica
Srebrenica

Atravesso a estrada e entro agora no Cemitério e local de homenagem. Foi inaugurado em julho de 2009, na presença de 20 mil pessoas, assinalada com o enterro de mais de 500 vítimas cujos restos mortais tinham sido identificados. Desde então, as vítimas que foram sendo encontradas e identificadas foram sendo ali enterradas. Atualmente o cemitério conta com mais  6500 vítimas, mas esse número aumenta a cada ano, à medida que mais valas comuns são exumadas e restos mortais são identificados. Na entrada, ao lado das lápides brancas, uma parede com os nomes dos mortos e na entrada uma pedra que assinalada o número de mortos e desaparecidos. Porque  é importante não esquecer.

Para assinalar estes acontecimentos realiza-se anualmente a Marcha Anual da Paz, uma caminhada comemorativa em homenagem aos 15 000 homens que formaram a coluna e embarcou numa perigosa caminhada de 100 km de Srebrenica a Tuzla, na tentativa de escapar da perseguição sérvia. A caminhada de três dias, que começa em 7 de julho de cada ano, acolhe participantes de todo o mundo a marchar em protesto pelas detenções e ações judiciais pendentes pelos responsáveis ​​pelo genocídio de Srebrenica e pelos inúmeros crimes de guerra cometidos durante o conflito na Bósnia.

Este foi um dia cheio de emoções e surpresas. Nem todas negativas. Aliás, graças ao guia que acompanhou a minha tour, um jovem local com muitas histórias para contar, consegui sair de Srebrenica com um sorriso. Levou-nos a almoçar a casa de uma família local onde fomos recebidos com grande hospitalidade e comida local caseira e deliciosa. Conhecemos toda a família, incluindo a matriarca que sobreviveu ao massacre.  Terminamos o dia na sua casa, conhecemos os seus pais e brindamos com a família. Ali, naquele lugar, percebemos que as pessoas são capazes de ultrapassar as maiores atrocidades e continuar a viver. As cicatrizes estão lá certamente, mas o importante é o hoje e o futuro. E a memória. Forgive but not forget.

Srebrenica

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