Mostar, uma cidade inesquecível

Para perceber a Bósnia e a própria cidade de Mostar é preciso conhecer a história deste território desde a sua origem. A Bósnia e Herzegovina nasceu da dissolução da Jugoslávia, mas as suas origens datam à época do Império Romano. Outros importantes impérios passaram por esta região deixando as suas marcas e fazendo da Bósnia a mistura de etnias que é hoje, nomeadamente o Império Otomano, na segunda metade do século XV até 1878, e o Império Austro-Húngaro que durou até à I Guerra Mundial.

Mostar.png

No final da Guerra nasce a Jugoslávia, anexando entre outros territórios a Bósnia, governado por Tito, um ditador que conseguiu manter a união entre povos e etnias distintos até 1981, ano da sua morte. A paz entre os povos, após a sua morte, durou até 1991, quando a Bósnia e Herzegovina, a Croácia, a Servia e a Eslovénia se uniram a declarar a independência da Jugoslávia, dominada pelos sérvios. Em resposta os nacionalistas sérvio-bósnios (que basicamente não queriam a independência) começam a perseguir os muçulmanos. Recorde-se que o país estava dividido entre cristãos, os sérvios de maioria ortodoxa e os croatas católicos, e os bósnios maioritariamente muçulmanos. De 1992 a 1995, enquanto durou a guerra civil nos Balcãs, morreram mais de 200 mil pessoas naquelas terras e 2.5 milhões fugiram dos horrores da guerra. Apenas os ataques aéreos da NATO conseguiram levar os sérvios da Bósnia a conversações de paz em 1995, o que levou à assinatura do Acordo de Dayton.

O acordo deu origem à Bósnia e Herzegovina, composta pela Federação da Bósnia e Herzegovina (que inclui muçulmanos e croatas) e a Republica Srpska (onde se localizam os sérvios). Assim, o país continua separado, mas unido em torno de uma mesma bandeira. A população continua a representar esta mistura de etnias com 48% Bósnios (essencialmente muçulmanos), que vivem essencialmente na zona mais central, 37% de Sérvios (Ortodoxos) no norte e este do país e 14% Croatas (Católicos) essencialmente no sul e oeste. O próprio governo do país espelha esta separação com uma governação tripartida que muda de x em x meses, para dar lugar a que as três etnias se vejam  representadas.

É assim fácil perceber a dicotomia em que a Bósnia e em particular a cidade de Mostar se encontram. Mostar está, como o país, dividida em duas partes, de um lado os muçulmanos bósnios e do outro sérvios e croatas, cada grupo ocupando uma das margens do rio Neretva que funciona como fronteira natural entre elas. As suas pontes têm sido, desde sempre, pontos de aproximação.

No entanto, ao entrar na cidade rapidamente apercebi-me das cicatrizes que persistem da guerra civil, com prédios por reconstruir, com marcas de tiroteios ou rajadas das armas. Para memória futura alguém referiu. Como se fosse possivel esquecer.

Este foi o primeiro retrato com que fiquei da cidade e o que mais me marcou. Não me consigo imaginar a viver em apartamentos cuja fachada está completamente coberta de buracos de bala, memória sempre presente de uma guerra recente.

Mostar (11)
Mostar (10)
Mostar (9)

A primeira paragem é inevitavelmente na zona histórica, para lá do rio Neretva. De repente estou noutro mundo a tentar responder à pergunta que me surge de forma imediata “De certeza que estou na Europa?”

A influência otomana é evidente. O recorte da cidade está coberto de telhados e minaretes de mesquitas, as ruas parecem bazares, com artesanato e restaurantes muçulmanos. Cheira a shisha e a comida bem condimentada em todas as ruas.

Mostar
Mostar (15)
Mostar (14)


A segunda paragem, e talvez a mais esperada, é na infame Ponte Stari Most, um dos principais pontos de visita da cidade. Ícone que ligou durante mais de 400 anos os dois lados da cidade, uma ponte de ligação entre dois mundos, uma ponte de entendimento entre ocidente e oriente. 

Stari Most ficou famosa pela forma como foi ataca e destruída durante a Guerra dos Balcãs, “um dia triste para todos os habitantes da cidade”. Foi reconstruída em 2004, é atualmente um símbolo da coexistência de comunidades de diversas origens culturais, étnicas e religiosas, sublinhando os esforços ilimitados da solidariedade humana para a paz e cooperação.

Mostar (16)

A Stari Most é atualmente local de passagem de muitos turistas e dos famosos saltos para a água. Curiosamente, explicaram-me que se nos quisermos atirar é necessário solicitar autorização aos “Guardiões da Ponte”, ensaiar os saltos num local nas suas imediações e só depois de dominar a técnica é nos autorizam a saltar.

Questão que me surgiu de imediato. Existem assim tantos visitantes de Mostar que tenham o súbito desejo de se atirar de uma ponte da altura de 30 m? Estranho! Por mim, deixo essas acrobacias para os locais ou para os profissionais do Red Bull Clif Diving que por ali passam todos os anos.

A ponte e o centro histórico de Mostar foram classificados como Património Mundial da UNESCO em 2005. No Museu da Ponte Velha que fica instalado numa das torres de defesa pode-se não só ter uma vista diferente da ponte como conhecer a sua história. Na outra torre está localizada uma exposição fotográfica com poderosas imagens da guerra captadas pelo fotografo Neozelandês, Wade Goddard.

Mostar (3)
Mostar (6)
Mostar (2)

Mostar vai muito para além da Ponte Velha. Percorrer as suas ruas é uma verdadeira revolução para os sentidos. As cores das peças de artesanato, os cheiros dos restaurantes e dos bares de sisha, as imagens dos edifícios envolventes.

Percorrer as ruas é também um pequeno exercício de equilíbrio. As pedras com que foram construidas são seixos do rio que estão completamente lisas por mais de 400 anos de utilização e, por esse motivo, escorregadias. Eu que sou pessoa que tropeça no ar, andei sempre com mil cuidados.

Sobre a memória da guerra, vi ainda espalhadas por toda a cidade, pedras com a inscrição “Don’t Forget”, um alerta sobre as atrocidades que por ali passaram.

Mostar (4)
Mostar (1)


Na visita a Mostar foi ainda possível ficar a conhecer a Kriva Cuprija, uma pequena ponte que atravessa o riacho Rabobolja. Foi construída como teste para a Stari Most. Foi nela que testaram a inclinação e os materiais antes de avançar com a ponte principal.

Outro local de visita é a mesquita Koski Mehmed Pasa, datada de 1617 e reconstruída em 2001, após a guerra. Esta foi a primeira vez que entrei numa mesquita e achei o seu interior maravilhoso, talvez pelo simbolismo que a sua arquitetura encerra. O nicho totalmente pintado, de onde o íman faz as orações, está construído para refletir a sua voz para os restantes crentes, virado obviamente para Mecca. O Minber, uma espécie de altar, é o local onde o íman faz as orações nos dias sagrados. O domo cuja pintura altamente elaborada representa os céus.

Mostar (12)
Mostar (8)
Mostar (5)

Mostar é definitivamente uma cidade para deambular e absorver. Tudo aqui é diferente e a memória da guerra surpreendeu-me a cada esquina. As placas “Don’t Forget”, os edifícios esburacados ou destruídos, os edifícios reconstruídos ou por um qualquer habitante local que partilha uma memória desses tempos. O impacto que me provocou foi real. Não me consegui desligar do facto de a guerra ter pouco mais de 20 anos, ter sido tão fatal e sobretudo tão próxima de todos nós que vivemos na Europa .

Guia Prático: 
Como ir: A partir do aeroporto de Sarajevo ou de Dubrovnik, de autocarro ou comboio.

Como se deslocar: a pé, uma vez que na zona histórica não circulam veículos automóveis.

Onde e o que comer: apesar da passagem por Mostar ter sido curta recomendo o restaurante Sadrvan, além da comida tradicional e da simpatia dos empregados, tem um pátio interior muito agradável.

A moeda: a moeda é o Marco Bósnio (BAM), obviamente de valor inferior ao euro.

Deixar uma resposta