Varsóvia: um percurso pela memória judaica da II Guerra Mundial

aqui referi o quanto Varsóvia foi uma cidade marcada pela II Guerra Mundial. A comunidade judaica foi especialmente foi perseguida e atormentada, tendo sido quase por completo exterminada.

Antes da II Guerra Mundial, mais de 30% da população de Varsóvia era constituída por judeus, a segunda maior comunidade judaica na Europa. Existiam na cidade centenas de escolas e instituições judaicas como bibliotecas, teatros, clubes desportivos e jornais.

A eclosão da segunda guerra mundial marcou o fim do mundo conhecido até aí para os judeus de Varsóvia. Passaram a ter de usar a estrela de David e foram remetidos para uma zona na cidade onde ficariam confinados e isolados, o infame gueto de Varsóvia. Este espaço chegou a reunir mais de 350.000 pessoas por trás de seus muros. Seis anos de ocupação alemã em Varsóvia foram suficientes para eliminar completamente qualquer vestígio da comunidade Judaica aqui existente, exterminada no Gueto ou nas câmaras de gás do campo de Treblinka.

Pela cidade, apesar da sua quase completa destruição, ainda encontramos alguns vestígios do que foi a presença e a perseguição ao povo judaico. Partimos assim pelas ruas da cidade em busca dos ainda existentes guardiões de memórias.

Gueto de Varsóvia

O Gueto de Varsóvia foi o maior gueto judaico estabelecido na Polónia. Foi construído em 1940 e estava cercado por uma parede de 3 metros de altura. A fronteira do gueto atravessava ruas, praças e quintais. Estava dividido entre o “pequeno” e o “grande” gueto, separados apenas por uma ponte pedonal.

Em apenas três anos ali morreram mais de 100.000 pessoas de fome  ou doença. Em 1942 o “pequeno” gueto foi eliminado. Os cerca de 60.000 judeus que ainda sobreviviam, após a deportação de mais de 100.000 pessoas para os campos de concentração, ficaram confinados ao “grande” Gueto para que pudessem trabalhar nas fábricas alemãs. Em 1943 o gueto foi completamente exterminado, após a Revolta do Gueto, e deitado abaixo. Apenas a Igreja de S. Agustino ficou de pé.

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Hoje é possível encontrar alguns, poucos, vestígios do que foi outrora o muro do Gueto. Existem pequenos fragmentos da sua parede nas ruas Sienna 55 (entrada da ul. Złota 62) e Waliców 11. São locais de recordação que apesar de estarem algo encobertos pela cidade que entretanto cresceu à sua volta, continuam bem presentes na memória de todos. É ainda possível encontrar, nas calçadas, uma gravação que percorre o total traçado do muro, desenvolvida para manter viva a memória de todos os que pereceram neste local. Desenvolvido com a ajuda do Instituto Histórico judaico, a rota delimita o antigo gueto delineado no pavimento e inclui 21 placas informativas posicionadas em locais de especial interesse.

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Os últimos prédios da Rua Próżna

O Holocausto e a subsequente destruição de Varsóvia na II Guerra Mundial apagaram praticamente todos os vestígios da presença da comunidade judaica na cidade antes da guerra. Subsiste apenas um lugar onde ainda é possível encontrar um fragmento da memória. Na rua Próżna encontram-se duas filas de prédios delapidados, atualmente tapados devido à degradação em que se encontram, que resistiram à destruição da Guerra. Estes edifícios estavam localizados no interior do gueto. Em tempos estes edifícios tinham, afixados na sua fachada, uma série de fotografias gigantes, retratando membros da comunidade judaica que desapareceu.

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Rua dos Heróis do Gueto

A Ulica Bohaterów Getta  era a antiga Rua Nalewki, uma das  mais importantes ruas da Varsóvia judia. Aqui se localizavam as principais lojas e todo o movimento de uma comunidade próspera e culta. Todos os seus edifícios, com exceção do edifício do Arsenal foram destruídos durante a II Guerra Mundial. Foram preservados apenas os carris do elétrico e o pavimento. Atualmente alberga um pequeno conjunto habitacional e a sua dimensão e relevância não se aproximam nem por sombras da antiga.

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Umschlagplatz

Entre julho e setembro de 1942, a maioria dos habitantes do gueto foi deportada para campos de extermínio. A linha de caminho de ferro na rua Stawki, que os alemães eufemisticamente referiam como o “local de transferência” – Umschlagplatz, foi usado para essa finalidade. O transporte de judeus para os campos de concentração e extermínio de Treblinka partiam diretamente desta Praça. Todos os dias mais de 5000 pessoas eram encaminhadas para a morte deste local. O atual o Monumento foi construído em 1988 e tem, nas paredes, a informação de que mais de 300.000 judeus seguiram o caminho de sofrimento e morte entre 1940-1943, do gueto criado em Varsóvia até aos campos de morte nazis. Nas paredes estão também inscritos 450 nomes, de Abel a Żanna, representando os 450.000 judeus presos no gueto de Varsóvia.

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Monumento aos Heróis do Gueto

O Monumento aos Heróis do Gueto foi inaugurado em 1948, no quinto aniversário do início da revolta, quando a cidade se encontrava ainda em ruínas. O monumento assinala o desafio heróico dos judeus confinados no gueto de Varsóvia. A revolta durou cerca de um mês e foi a maior revolta levada a cabo pelos judeus durante a II Guerra Mundial. Quando finalmente os alemães conseguiram por fim à Revolta o gueto foi completamente arrasado.

Um dos lados do monumento mostra homens, mulheres e crianças a segurar granadas, armas e garrafas de gasolina nas mãos e simboliza a revolta heróica dos insurgentes, enquanto do outro lado, intitulado “Marcha da morte” representa o sofrimento e martírio de vítimas inocentes. Ironicamente, o monumento é coberto com lajes de pedra encomendadas durante a guerra pelos alemães, como material para construir monumentos comemorativos da vitória de Hitler.

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Entre a Umschlagplatz  e o Monumento aos Heróis do Gueto  foi constituída a Rota Memorial do Martírio e Luta dos Judeus, um percurso assinalado com 15 blocos de granito pretos que homenageiam proeminentes residentes do gueto.

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A Sinagoga Nożyk

A sinagoga é um edifício neo-românico que foi construído em 1898-1902. Durante a guerra foi convertida em estábulo e quase destruída mas, apesar dos danos, reconquistou a sua função original na comunidade judaica de Varsóvia. É a única sinagoga pré-guerra que ainda se encontra em funcionamento.

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A Ponte Pedonal da Rua Chłodna 22

No início de 1942 existia neste local uma ponte de madeira usada para servir de passagem para os judeus que migravam do gueto “pequeno” para o “grande”. Debaixo da ponte, estava localizada a Rua Chłodn, que foi excluída do gueto por causa de seu importante papel na ligação da cidade. Atualmente, o local apresenta uma instalação de arte especial – “A passagem da memória”, que, através de elementos multimédia, mantém a memória desses acontecimentos trágicos.

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