Angkor Wat, os templos perdidos do Camboja

Durante séculos este grandioso complexo de 400 km² esteve perdido no meio da floresta, engolido por raízes, ramos, árvores e arbustos. Angkor é um dos mais grandiosos complexos de templos do mundo, reunindo cerca de 100 templos, construídos por orgulhosos reis khmer, que durante séculos se tentaram suplantar em grandiosidade. A maioria dos templos foram construídos entre os séculos XIX e XII, numa época em que a capital localizada em Angkor era ocupada por mais de 1 milhão de pessoas.

camboja

Este complexo foi descoberto em 1860 por um naturalista francês, Henri Mouhot e foram as suas descrições fabulosas que tornaram o local famoso, mesmo estando, na época, coberto pela selva envolvente.

Este espaço esteve, até muito recentemente, abandonado devido às lutas internas. Nas mãos dos Khmer Vermelhos e das guerrilhas da guerra civil foi pilhado para custear as armas e deixado à mercê de uma selva impiedosa que novamente voltou a engolir os templos. Nos últimos anos, foi recuperado e reaberto ao público, pois uma tal riqueza histórica, cultural e arquitetónica não pode ficar escondida nem abandonada. Atualmente muitos dos templos encontram-se em recuperação, apoiada e custeada por diversos países.

Quando cheguei a Angkor Wat, não dava para ver grande coisa porque além de ser de noite, o espaço não tem quase luz nenhuma. No entanto, mal a luz entra no horizonte fiquei sem ar e nem acreditava que ali estava finalmente. O sol levanta-se atrás do templo, mostrando uma silhueta das torres de encontro a um céu colorido. A paisagem é avassaladora e o templo destaca-se na luz da madrugada, refletido no espelho de água. Foi um momento único e inesquecível.

Comecei a visita por Angkor Wat, uma pirâmide maciça de três andares com cinco torres em lótus com 65 m de altura. É a peça central e ponto de partida de quase todas as visitas. Foi construído pelo rei Suryavarman II e dedicado ao Deus Hindu, Vishnu. O templo tem um km² e está cercado por um fosso e uma parede exterior com 1300 × 1500 metros. As paredes do templo estão cobertas com baixos-relevos e esculturas, dos quais se destacam as quase 2000 apsaras. As paredes exteriores do nível mais baixo exibem os mais extraordinários baixos-relevos, retratando histórias e personagens da mitologia hindu e as guerras históricas de Suryavarman II.

angkor-wat-1
angkor-wat-2
angkor-wat-3
angkor-wat-4

Apsaras são espíritos femininos das nuvens e das águas na mitologia Hindu e Budista. O nome, significa ‘movendo-se na água,’ em analogia com Afrodite. Dizem serem capazes de mudar de forma de acordo com a sua vontade.


Segui depois pela Porta Sul para Angkor Phom, que significa Angkor Grande. É uma cidade real, última capital do império de Angkor, murada e com um fosso de três km². Os primeiros templos aqui construídos foram Baphuon e Phimeanakas e a cidade desenvolveu-se à sua volta. Bayon, um dos maiores templos de Angkor, só foi construído depois. Esta “cidade” tem cinco portões, uma para cada ponto cardeal, coroados com quatro faces gigantes.

entrada-sul-2
entrada-sul-1

A visita ao complexo começou por Bayon, conhecido pelas suas gigantes caras de pedra. O templo tem 37 torres de pé, algumas delas com as tais caras esculpidas orientadas para os pontos cardeais. Não existe nenhuma certeza quanto a quem podem representar e as teorias à sua volta são dispersas. À semelhança de Angkor Wat tem também uma série de baixos-relevos nas paredes exteriores do nível mais baixo e no nível superior que contêm, entre outras, cenas reais da histórica batalha marítima entre o Khmer e o Cham, cenas da vida quotidiana, cenas de batalha e cenas de comércio.

bayon-1
bayon-2
bayon

Segui para Baphuon, o maior templo-montanha de Angkor Thom. Este templo foi reaberto recentemente (2011), depois de o seu projeto de restauro ter sido abandonado em 1975, por causa da guerra. Os registos deste trabalho, iniciado em 1970, perderam-se durante a guerra, deixando um monte de pedras, resultado dos trabalhos anteriormente iniciados, espalhadas pelo chão. Por aqui destacam-se os entalhes de animais na entrada e o impressionante Buda Reclinado no lado oeste, adicionado ao templo no século XVI.

baphuon-2

Segui depois para Phimeanakas, um dos templos mais altos do complexo. Recomendo a subida uma vez que a vista lá de cima é bem exuberante, rodeada de floresta por todo o lado. Segundo a lenda, a torre dourada que coroa o templo foi habitada por uma serpente, que se transformaria numa mulher. Os reis de Angkor eram obrigados a fazer amor com a serpente todas as noites, para que não acontecessem desastres, com eles ou com o reino.

baphuon-1

Duas das construções mais interessantes de Angkor Phom são o Terraço dos Elefantes e do Rei Leproso, ambos construídos no século XII. O Terraço dos Elefantes tem 2,5 m de altura, com uma parede de 300 metros de comprimento, decorada com elefantes, abrangendo Baphuon, Phimeanakas e a área do Palácio Real no coração de Angkor Thom. A secção norte da parede exibe uma escultura de um cavalo de cinco cabeças e cenas de guerreiros e dançarinos. O Terraço do Rei Leproso está na extremidade norte do Terraço dos Elefantes e o seu muro tem esculpidas nagas, demónios e outros seres mitológicos. O seu nome deriva da estátua do rei com o mesmo nome que está no topo, sendo que a origem do nome da estátua é tudo menos consensual.

terraco-elefantes-2
terraco-elefantes-1

Já fora do complexo de Angkor Thom encontrei o templo Ta Keo, um templo-montanha dedicado a Shiva, conhecido como “a montanha com picos de ouro.” Foi o primeiro a ser construído inteiramente de arenito.

Ta Keo (3).JPG
ta-keo-1
ta-keo-2

Percorrendo a Estrada de terra batida cheguei a Ta Prohm, um dos templos mais impressionantes (e não, não é porque foi cenário do filme Tomb Raider). Este templo foi totalmente engolido pela selva envolvente e, mesmo tendo sido recuperado, foram deixadas muitas das árvores que cresceram à volta e por dentro das suas paredes. O efeito é verdadeiramente espetacular. Foi originalmente construído como um mosteiro budista e era muito rico, controlando cerca de 3000 aldeias, milhares de empregados e várias lojas de joias e ouro.

ta-prohm-1
ta-prohm-2
ta-prohm-3

Passei depois por Banteay Kdei, originalmente construído sobre um templo anterior e que foi um mosteiro budista. Os materiais usados na sua construção não foram os melhores o que justifica a aparente erosão e desgaste do templo.

banteay-kdei-1
banteay-kdei-2

E como Srah Srang é mesmo frente passei por lá logo a seguir. Srah Srang tem uma curiosa plataforma multi camada adornada com guardiões em forma de nagas e leões. Existe no meio do lago uns resquícios de um templo-ilha ali construído, mas só pode ser encontrado durante a época seca, quando a água está baixa. Srah Srang oferece uma agradável, e menos turística, alternativa ao nascer do sol em Angkor Wat.

sras-srang-1
sras-srang-2

Outros templos de interesse:

Chau Say Thevoda e Thommanom são os templos imediatamente a seguir à Porta da Vitória, uma das saídas de Angkor Thom. Chau Say Tevoda é um pequeno templo muito como Thommanon, localizado logo em frente, construído em meados do século XII e dedicado a Shiva. Exibe algumas esculturas bem executadas que ainda estão em condições razoáveis. Thommanom é um templo que está em muito bom estado de conservação, construído ao mesmo tempo que Angkor Wat e com um estilo muito similar que pode ser observado nas torres. Parece fazer conjunto com Chau Say Tevoda do outro lado da rua, mas foi construído décadas antes.

chau-say-tevoda
thommanom

Foi em Prasat Kravan que fechei a minha visita. As suas torres de tijolo e as paredes com baixos-relevos únicos e perfeitamente restaurados de Vishnu e Lakshmi são fabulosos. Foi reconstruído por arqueólogos no início do século XX e os sinais desta recuperação são visíveis nos tijolos assinalados com as letras “CA”.

prasat-kravan-2
prasat-kravan

Foi um dia intenso e com muitas surpresas e momentos de êxtase. Nunca na vida tinha estado num local tão complexo, diferente e grandioso.


Como ir e todas as outras informações para sobreviver a 400 km² de templos aqui.

Leave a Reply