Hanoi, uma cidade entre a tradição e a modernidade

Hanoi.png

Chegamos a Hanoi e o primeiro impacto a caminho hotel é o transito caótico e pensamos como vamos sobreviver a andar por estas estradas onde claramente não existem regras, as motas dominam e os peões são quase invisíveis. No entanto, mal saímos para as ruas somos arrebatados pelo palpitar da cidade e não conseguimos deixar de rir. Esta cidade não existe…

Hanoi não só existe como é uma das capitais mais antigas do mundo, fundada em 1010 AC. Localizada nas margens do Rio Vermelho, nasceu e cresceu à volta de uma cidadela cercada de diferentes guildas comerciais que serviam a corte. Esta zona é o atual “centro histórico”, onde agora bate o coração da cidade. Mais tarde, com a chegada dos franceses no século XVI, partes da cidadela foram destruídas para criar espaço para o Bairro Francês. Em 1954, foi proclamada a capital do estado independente do Vietname. Nos anos 1960 foi arrastada de forma violenta para a Guerra do Vietname (ou Guerra Americana como é conhecida localmente). Atualmente a capital do Vietname procura compensar o tempo perdido durante 21 anos de guerra.

As ruas de Hanoi são o espelho desta história atribulada, preservando resquícios arquitetónicos das colónias francesa e chinesa. A cidade está dividida em diferentes bairros, cada um com as suas características únicas como o Old Quarter, onde a cidade nasceu e de desenvolveu de forma caótica e simultaneamente organizada (parece um paradoxo mas existem ordem no meio do caos); o Distrito de Ba Dinh, onde se encontra a imponente e histórica cidadela; o distrito de Hoan Kiem, a zona mais glamourosa da cidade, onde encontramos a ópera e hotéis famosos como o Sofitel Legend Metropole;  e o Quarteirão Francês, zona de arquitetura tipicamente colonial.

O Old Quarter, ou a zona histórica, é a alma da cidade e o principal ponto de atração dos muitos que todos os anos a visitam. As suas ruas são caóticas, repletas de vendedores de calçada (sim, porque as calçadas por estes lados servem para tudo menos para os peões:)), de milhares de scooters, de restaurantes, bares e cafés. Por aqui vende-se um pouco de tudo, desde especiarias, café e chá, roupas, doces e eletrónica. É por este motivo que os nomes das ruas foram atribuídos de acordo com as diferentes guildas comerciais que ali se instalaram. As ruas começam quase todas com a palavra Hang, que significa mercadoria, e a palavra seguinte faz referência ao produto comercializado, como por exemplo Hang Gai, rua da seda. É fascinante deambular por estas ruas, sem destino e apenas apreciar a vida do bairro e das suas gentes.

Vietname_Hanoi (23).jpg

É por aqui que encontramos o pequeno Templo Bach Ma, considerado um dos mais antigos da cidade. Foi construído no século XI pelo Imperador Ly Thai To para homenagear um cavalo branco que o guiou para este local, onde acabou a construir as muralhas da cidade. Bach Ma ficou então a ser o guardião do espírito da cidade. O templo é um local mágico e que convida à meditação, um espaço de silencio e tranquilidade no meio de um bairro que nunca para.

Vietname_Hanoi (24)

É também por aqui que encontramos o mercado Dong Xuan, o maior e mais antigo mercado coberto de Hanoi. É um espaço singular. Foi originalmente construído pelos franceses, mas o edifício é claramente de estilo soviético, um mamarracho de cimento de quatro andares, com a fachada original, de origem colonial francesa. Aqui é possível comprar de tudo, desde produtos frescos (e ao vivo), a roupas, presentes, artesanato local, acessórios, flores e eletrónica. Tem ainda diversos espaços de refeição ou café, onde é possível provar a comida local a qualquer hora do dia.

Vietname_Hanoi (18)Vietname_Hanoi (19)Vietname_Hanoi (20)

Os mercados são sempre os espaços que mais gosto de visitar, sobretudo os asiáticos. A confusão das “bancas”, os produtos, muitos dos quais nem sabemos o que são, dão uma ideia da gastronomia local, os cheiros pungentes e nem sempre agradáveis são uma experiência e a forma como os produtos são comercializados permitem emergir na realidade local. Por este motivo, Dong Xuan Market é visita obrigatória para quem procura conhecer um pouco melhor o estilo de vida de Hanoi.

IMG_0346IMG_0350

Umas ruas abaixo entramos no Distrito Hoan Kiem, que vive e respira à volta do lago com o mesmo nome. Segundo a lenda, o imperador Ly Thai recebeu uma espada mágica que o ajudou a derrotar a dinastia Ming chinesa e a instalar-se neste território. Mais tarde uma tartaruga gigante apareceu-lhe e exigiu a espada de volta, refugiando-se de seguida nas águas do lago e devolvendo a espada aos seus donos divinos. Daí surgiu o nome do lado Ho Hoan Kiem (Lago da Espada Devolvida). Hoje a ‘Torre da Tartaruga’ está localizada no meio do lago em memória desta lenda. Existem também grandes tartarugas de casca mole que nadam no lago e trazem sorte a quem as avista. Numa das extremidades do lago encontramos o Templo Ngoc Son, um pagode localizado no centro de uma pequena ilha. O templo atrai muitos visitantes e foi construído em homenagem ao líder militar, Tran Hung Dao. Dentro do pagode há um grande busto de bronze e outras divindades, altares dedicados a Tran Hung Dao, artefactos antigos e um espécime preservado de uma tartaruga gigante encontrada no lago e que pesa 250kg. A ilha é conhecida como a Ilha de Jade e é acessível pela icónica Ponte Huc ou Ponte do Sol Nascente, uma encantadora ponte de madeira pintada de vermelho. O lago e o templo são provavelmente os lugares mais famosos da cidade de Hanói.

Vietname_Hanoi (7)Vietname_Hanoi (25)Vietname_Hanoi (26)Vietname_Hanoi (27)

Toda esta zona que envolve o lago é ponto de encontro para praticantes de Tai Chi, namorados, vendedores de frutas e outras iguarias locais. O espaço é relativamente tranquilo face à loucura e barulho geral da cidade e muitos aproveitam a zona para relaxar. Ao domingo as ruas circundantes são cortadas abrindo espaço para uma larga zona pedonal onde as crianças correm livremente, os grupos de jovens sentam-se a jogar ou a tocar e há atividades para toda a família, enchendo a área de animação.

Bem perto do Lago Hoan Kiem e da Praça da Revolução de Agosto encontra-se a Ópera de Hanoi, um glorioso edifício neoclássico, inspirado na ópera de Paris. A sala é uma atração mundial para as maiores performances de ópera com o seu interior glorioso, com 600 lugares. A Ópera de Hanoi é o maior teatro do Vietname e uma referência na cidade.

Vietname_Hanoi (17).JPG

Umas ruas ao lado e encontramos a catedral de São José, uma igreja quase siamesa da Notre Dame de Paris, com as suas duas torres gémeas. O altar elaborado e os vitrais são alguns dos aspetos que não nos deixam indiferentes. Este é o centro da vida católica em Hanoi.

Vietname_Hanoi (2).jpg

Passando para o Distrito de Ba Dinh, impõem-se visita à imponente Cidadela Imperial de Thang Long, Património Mundial da Unesco desde 2010. A Cidadela Imperial foi o centro do poder militar vietnamita durante mais de 1000 anos e centro político durante 13 séculos consecutivos. Foi aqui que se instalou a capital do Vietname durante oito séculos. Entre outros pontos de interesse que por aqui podemos visitar, destacam-se a Torre da Bandeira, uma fortaleza de pedra com 40 metros de altura que oferece amplas vistas da Praça Ba Dinh e do Centro da Cidade, e as gigantes escavações arqueológicas, contíguas aos palácios. Os bunkers militares construídos durante a “Guerra Americana” – com mapas e equipamentos de comunicação da década de 1960 localizados no edifício D67, centro de comando durante a Guerra, são talvez os espaços mais visitados e os mais curiosos, uma vez que ainda se mantém praticamente inalterados, incluindo os termos de café e as chávenas na sala de operações. Parece que a qualquer momento entraram por ali os generais responsáveis pelo centro de operações para organizar o próximo ataque militar a uma qualquer base americana.

Vietname_Hanoi (6)Vietname_Hanoi (21)Vietname_Hanoi (22)

Umas ruas depois encontramos o singular Mausoléu de Ho Chi Minh. Esta gloriosa peça é o principal foco de atenção da Praça Ba Dinh e é o local de descanso final de Ho Chi Minh, o líder mais icónico e popular do Vietname, conhecido pelo seu povo como ‘Tio Ho’. O seu corpo está aqui colocado (parece que contra a sua vontade que era ser cremado) e é atualmente (coitado) atração turística para os milhares de visitantes de Hanoi.  A construção do mausoléu foi inspirada no mausoléu de Lenine, na Praça Vermelha, em Moscovo. Talvez por isso o edifício de granito seja apenas um enorme bloco no meio da praça, com zero beleza estética e bom gosto. Dizem que o objetivo inicial era assemelhar-se a uma flor de lótus, mas quase ninguém consegue encontrar semelhanças (eu incluída). O mausoléu é um importante local de peregrinação para muitos vietnamitas.

Vietname_Hanoi (8).JPG

Logo ao lado vemos uma imensidão de pessoas que se dirigem para um dos mais importantes templos de Hanoi, o Pagode Um Pilar. Originalmente construído pelo Imperador Ly Thai Tong, está associado a uma lenda na qual o imperador, que não tinha até então um herdeiro, sonhou com a visita da Deusa da Misericórdia que lhe entregou um filho do sexo masculino. Ly Thai Tong casou-se então com uma jovem com quem teve o tão desejado filho e herdeiro. Como forma de expressar sua gratidão, construiu este pagode em homenagem à Deusa. Construído de madeira num um único pilar de pedra (característica que lhe dá nome), o pagode foi projetado para se assemelhar a uma flor de lótus, símbolo da pureza, que se ergue num lago enlameado.

Vietname_Hanoi (9).JPG

Por fim, chegamos finalmente ao templo mais esplendoroso de Hanoi, o Templo da Literatura. Este templo é um raro exemplo arquitetura tradicional vietnamita que se conseguiu manter de forma quase impecável até aos nossos dias. O Templo da Literatura honra os melhores estudiosos do Vietname e é dedicado a Confúcio, pensador e filosofo chinês cujos pensamentos deram origem a um sistema filosófico conhecido por confucionismo. Foi ainda o local onde nasceu a primeira universidade do Vietname, cuja admissão era exclusiva para aqueles que nasciam em famílias nobres. Só em 1442 se tornou mais igualitária e passou a receber estudantes talentosos de todo o país que se dirigiam a Hanoi para estudar os princípios do confucionismo, da literatura e da poesia. Por este motivo, o Templo da Literatura é essencialmente um lugar de estudo e não tanto um templo religioso.  O complexo tem cinco pátios, dois com jardins paisagísticos, o terceiro tem uma lagoa conhecida como Poço da Claridade Celestial, o quarto pátio é chamado de Pátio Sábio e possui uma estátua de Confúcio e uma casa de cerimónias e o último pátio é Thai Hoc, onde se localizam um grande tambor e a torre do sino. Os jardins imaculados são ricos em árvores antigas e são considerados um lugar sereno no qual os alunos podem relaxar. Existem estátuas de pedra e inscrições espalhadas por todo o templo, como as estelas de tartarugas que tem inscritos os nomes de estudiosos ilustres que por ali passaram.

IMG_0278Vietname_Hanoi (11)Vietname_Hanoi (12)Vietname_Hanoi (13)

A separar o Bairro de Ba Dinh e o Bairro Francês, meio escondida, cruzamos pela rua do comboio. Local de passagem obrigatória, onde este passa mesmo rente às casas que ali se instalaram. As populações fazem a sua vida normal, integrando a linha como extensão das suas habitações, servindo inclusive para jardim de ervas aromáticas. Alguns cafés fizeram desta efeméride diária o seu ganha pão instalando as mesas mesmo no meio dos carris. O comboio passa duas vezes por dia durante a semana, pelas 19h e pelas 21h, e quatro vezes ao fim-de-semana, as 10h, 14h, 19h e 21h. A experiência é de cortar a respiração, até porque o comboio apita ferozmente é passa veloz, sem abrandar à passagem deste bairro peculiar.

Vietname_Hanoi (3)Vietname_Hanoi (4)

Seguimos para o Quarteirão Francês, o Bairro onde a presença colonial é ainda bastante evidente nas construções que se assomam de ambos os lados da rua. É uma zona bastante interessante, onde se cruzam diferentes épocas da história do Vietname.  Aqui encontramos o Museu de Hoa Lo, um local estranho que abriga o que restou da antiga prisão de Hoa Lo, destruída para dar lugar a um mamarracho de prédio que atualmente lhe faz sombra e espreita por cima do ombro. Esta prisão foi ironicamente apelidada durante a Guerra do Vietname de “Hanoi Hilton”, pelos pilotos americanos capturados que eram aqui aprisionados. O nome deriva do facto de os mesmos serem tão bem tratados na prisão que a comparavam a um hotel de luxo. Entre estes pilotos destaca-se um nome mais ou menos famosos, o do senador John McCain, candidato republicano à presidência dos EUA em 2008). O traje de voo de McCain, juntamente com uma fotografia do seu resgate do lago Truc Bach depois de terem sido abatido em 1967, fazem parte da exposição. O vasto complexo prisional foi construído pelos franceses em 1896 e foi uma das maiores prisões na colonialista Indochina Francesa. No entanto, nunca foi uma prisão muito bem-sucedida, tendo escapado centenas de prisioneiro ao longo dos anos, muitos deles através de grades de esgoto, também incluídas na exposição.

Vietname_Hanoi (15).JPG

Junto ao museu encontramos o Pagode do Embaixador, considerado o centro oficial do budismo em Hanoi. Foi estabelecido como ponto de paragem para dignitários budistas e é atualmente um dos mais populares pagodes da cidade, atraindo dezenas de seguidores.

Hanoi tem muito mais por ver e descobrir. É uma cidade de mais de 6 milhões de habitantes, onde as motas estão por todo o lado, o trânsito é caótico, os mercados são intensos e cheios de vida, as ruas repletas das mais diferentes formas de comércio e onde tradicional se mistura de forma quase perfeita com o moderno e cosmopolita. É uma cidade e um país a tentar deixar para trás as marcas de uma ocupação centenária e de uma guerra que não pediram para ter, não esquecendo, mas apenas superando e avançando.

Deixar uma resposta